Riscos Cardiovasculares do Tratamento com Bloqueio Androgênico

 

Existem diversas possibilidades terapêuticas de tratamento para o câncer de próstata, como a prostectomia (retirada cirúrgica da próstata), a braquiterapia (um tipo de radioterapia colocada no local que atua durante um tempo mais longo), a radioterapia e o bloqueio androgênico, a escolha de uma destas condutas necessita de avaliação do quadro clínico do paciente, onde são observadas a agressividade do tumor, as comorbidades e a expectativa de vida. O bloqueio androgênico teve seu uso iniciado na década de 40, por Huggins e Hodges, e apresenta segundo estudos dentre os efeitos colaterais, riscos de surgimento de doenças cardiovasculares.
O princípio do uso de bloqueio androgênico baseia-se na grande quantidade de receptores de andrógenos presentes nas células neoplásicas prostáticas, e no fato de que o crescimento celular depende da estimulação destes receptores. A testosterona é o principal andrógeno, sendo que sua liberação pelas células testiculares (células de leydig) depende da estimulação de um hormônio liberador de gonadotrofina, o GNRH que é secretado pela hipófise. A ação do GNRH pode ser interrompida pela administração de agonistas GNRH, antiandrogênos esteroidais e não esteroidais, estrógenos ou orquiectomia bilateral (retirada cirúrgica dos testículos). Sendo que segundo estudos as condutas mais eficientes são a administração de agonista GNRH e orquiectomia. Os agonistas GNRH diminuíam a secreção de LH, e é administrado através de injeções de depósito, onde a liberação do medicamento ocorre de forma lenta e gradual. A orquiectomia por sua vez, retira os produtores de androgênico.
O uso do bloqueio androgênico tem aumento na última década, utilizado inicialmente apenas em estágios avançados da doença (na fase mestastática), recentemente tem sido usado em pacientes com elevação do PSA após tratamento local com radioterapia ou prostectomia.
Essa terapêutica envolve uma série de efeitos adversos, como perda de força muscular, libido, alteraçãoes esqueléticas, disfunção erétil, anemia e ginecomastia (crescimento das mamas). A partir da década de 90 começaram estudos sobre prováveis complicações cardiovasculares decorrentes desta terapêutica, nos quais foi evidenciado o surgimento de alterações metabólicas e nutricionais, com aumento de peso e da quantidade de gordura corporal, bem como alteração nos níveis de colesterol total.
As alterações metabólicas decorrentes do bloqueio de andrógeno estão diretamente relacionadas ao desenvolvimento de doença cardiovascular aterosclerótica. O hipogonadismo provocado pela terapêutica é um fator de risco independente para o surgimento de síndrome metabólica. Segundo estudos a síndrome metabólica decorrente do bloqueio de andrógenos tem peculiaridades que diferem da forma clássica, com acúmulo de gordura predominante na no tecido subcutâneo ao invés da região abdominal, e o concomitante aumento de HDL e LDL (colesterol).
Estatísticas mostram que doenças cardiovasculares são as principais causa de morte em pacientes com câncer de próstata submetidos ao tratamento com bloqueio androgênico, sendo essa taxa de mortalidade maior que na população geral. Publicações recentes sugerem que o aumento de incidência de afecções cardiovasculares e a freqüência de infarto do miocárdio não são fatais nessa população.
O tratamento com bloqueio androgênico acarreta uma série de efeitos colaterais, que devem ser levados em consideração, dentre eles DAC (doença arterial coronariana), dislipidemia, diabetes, alterações metabólicas, e também aumento dos índices de infartos e doenças cardiovasculares. Portanto as condutas devem ser intimamente individualizadas e direcionadas para o melhor prognóstico, com menores efeitos adversos sobre o aparelho cardiovascular, bem como acompanhadas por equipes multiprofissionais, que incluem; o oncologista, o cardiologista, o nutricionista e profissional da área de treinamento físico.
 
 
Referências Bibliográficas:
Arquivos Brasileiros de CARDIOLOGIA. Rio de Janeiro: volume 95, ISSN-0066-782X, Setembro 2010, Sociedade Brasileira de Cardiologia. Cardiovascular Risks of Adrogen Deprivation Therapy.
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FILHO, Ribeiro, Flexa, Fernando. ZANELLA, Maria Teresa. Síndrome Metabólica e Diabete tipo 2. In: SOCESP. Tratado de Cardiologia, 1. ed. Barueri, SP, 2005.